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27abr

Publicado por: Marcelo Fairbanks (www.plastico.com.br)

Conhecido pelo comportamento resiliente em relação às oscilações econômicas, embora afetado por elas, o setor de tintas e vernizes encerrou 2014 tisnado pelo mau desempenho – e pelo mau humor – dos vários mercados que atende. O setor amargou uma redução de 1.67% no faturamento dolarizado, refletindo o volume comercializado de 1.408 milhão de litros, por sua vez 1,25% inferior ao registrado em 2013.

A expectativa setorial para 2015 aponta para uma elevação de 1% nas vendas, revertendo o encolhimento verificado em 2014. O desempenho acompanha a previsão corrente para a evolução do Produto Interno Bruto (PIB). E espera-se para 2016 um avanço ainda mais consistente.

Nesse sentido, soam coerentes as primeiras medidas anunciadas pela nova equipe econômica do governo federal, encabeçada pelo ministro da Fazenda Joaquim Levy, envolvendo aumento de impostos e medidas de contração de demanda interna. “As medidas anunciadas no dia 19 de janeiro devem ter um impacto forte e até negativo em um primeiro momento, mas são boas, de forma geral, e devem trazer os resultados esperados já no segundo semestre de 2015”, avaliou Dilson Ferreira, presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Tintas (Abrafati).

O impacto inicial será acentuado pelo fato de o poder aquisitivo da população estar em um patamar baixo, situação agravada pelo alto endividamento das famílias. Além disso, com o real desvalorizado em relação ao dólar e o aumento dos impostos aplicados sobre o valor das importações, a tendência é de elevação de custos industriais e dos preços ao consumidor, com a possiblidade de acelerar os indicadores de inflação.

“Isso vale para os itens que não possuem produção local, caso de 65% dos insumos consumidos pelos fabricantes de tintas, e há quem veja um estímulo à retomada industrial, mas isso não acontece tão rapidamente”, comentou Ferreira. Ele também observou que o mercado mundial de produtos químicos é francamente vendedor, com tendência de baixa de preços justificada pela queda nas cotações do petróleo e do gás natural.

Essa queda nos preços globais dos hidrocarbonetos pode amenizar o impacto das medidas para os consumidores, mas Ferreira não acredita que a Petrobras repassará totalmente essas cotações para os seus produtos, dada a necessidade de a companhia fazer caixa para tocar seu plano de investimentos. Além disso, a retomada da Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico), combinada com o PIS/Cofins, elevará o preço da gasolina em R$ 0,22 e do diesel em R$ 0,15 na refinaria.

O lado virtuoso das medidas amargas será a recuperação da credibilidade internacional do país e também da confiança dos consumidores locais, inaugurando um ciclo benéfico para investimentos. “Em 2014, houve um corte de investimentos em projetos de infraestrutura e de habitação, isso foi trágico para o país que é carente nessas duas áreas”, lamentou.

Os resultados desse corte podem ser sentidos agora, com ameaças de corte de fornecimento de eletricidade e de água, necessidade de importação de derivados de petróleo, meios de transporte insuficientes para as necessidades do país, entre outros.

“Começamos 2014 com expectativas positivas, pois a Copa do Mundo poderia alavancar o consumo de tintas, assim como as eleições, mas não foi o que se viu”, comentou. A Copa até absorveu um volume grande de tintas e vernizes, tanto na linha imobiliária quanto na industrial, mas esse volume foi menor do que a retração dos demais consumidores. “Sem a Copa, os resultados teriam sido piores”, considerou.

A indústria automobilística, o segundo maior mercado do setor de tintas, teve um péssimo resultado em 2014, com a queda de 15,5% na produção nacional, em face de uma redução de 9% nas vendas de automóveis, incluindo a retração das exportações, influenciada pelo comportamento pífio do mercado argentino. “Há fábricas novas e outras ainda em construção no Brasil no ramo automotivo, isso implica demanda futura crescente por tintas, trazendo algum alento para o setor”, considerou. Na prática, a venda de tintas automotivas originais (OEM) caiu 15,5% em 2014, acompanhando o ritmo da fabricação de carros. “Em compensação, a repintura automotiva cresceu perto de 4%, mas esse dado ainda é preliminar, estamos concluindo o levantamento dos dados com as associadas”, informou.

Construção imóvel – O maior mercado do setor de tintas no Brasil é a construção civil, incluindo obras habitacionais e de infraestrutura, que representam 62% do faturamento do ramo. Ambas tiveram atividade reduzida em 2014. Esse grupo de tintas registrou queda de 2% nas vendas.

Dilson Ferreira comenta que as vendas de tintas para construtoras representam apenas 15% dos negócios nesse segmento, enquanto a fatia majoritária, ou 85%, é obtida mediante as cadeias de distribuição (lojas especializadas, home centers, comércio de materiais em geral, etc.). Em geral, a venda “formiguinha” sempre garante bons resultados, especialmente após a liberação do pagamento da primeira parcela do 13º salário dos trabalhadores. “De fato, o final do ano passado não foi ruim, mas o resto do ano ficou muito abaixo da expectativa”, comentou.

Ele indica comportamento idêntico nos setor automotivo e industrial. Apesar disso, Ferreira aposta na retomada de investimentos produtivos no país, bem como na recuperação da confiança dos consumidores.

“Mas o país precisa fazer uma revisão de suas prioridades”, apontou o dirigente. Para ele, a política econômica deve ser orientada para o avanço social, porém com um custo/benefício adequado. “A recuperação social só acontece quando há crescimento econômico, é daí que vem a distribuição de renda”, enfatiza. Para tanto, as áreas de educação e saúde públicas precisam receber verbas e administração competente.

Avanço setorial – Apesar do soluço das vendas em 2014, Ferreira aponta alguns fenômenos interessantes no mercado de tintas e vernizes. A diversidade geográfica do país acaba se refletindo no comportamento heterogêneo das vendas. Nos últimos anos, por exemplo, as regiões Nordeste e Centro-Oeste foram as que apresentaram maior crescimento percentual. “Em 2014, a região Centro-Oeste registrou avanço acentuado, enquanto as regiões Sul e Sudeste foram as que mais sofreram redução de vendas”, informou. Ele atribui esse comportamento à força do agronegócio.

A região Nordeste, a maior beneficiada por programas sociais, também cresceu, também devido ao fortalecimento de polos econômicos regionais, como o da região de Suape-PE. “Em Goiana-PE estão sendo construídas uma fábrica da Fiat e uma unidade de produção de vidros, ou seja, há investimentos importantes sendo efetivados”, considerou Ferreira.

Olhando para um futuro um pouco mais distante, após 2016, ele identifica que o potencial dos negócios do setor se materialize. “Os segmentos consumidores continuarão a crescer, com investimento oficial – caso da infraestrutura e da habitação – ou privado, como o setor automotivo”, salientou.

Ferreira informou que o déficit habitacional do país se situa entre 5 milhões e 5,5 milhões de moradias, situação melhor do que a encontrada em 2003, quando faltavam 7 milhões de unidades. “O programa Minha Casa Minha Vida é um sucesso, mas deveria avançar mais”, afirmou.

Além do crescimento do mercado local, saliente-se que a importação de tintas prontas não preocupa o setor. “Os produtos importados representam menos de 5% do total vendido, e a metade desse percentual vai para a indústria gráfica”, disse. Na sua avaliação, o custo de transporte de tintas onera demais as operações internacionais, motivo pelo qual qualquer país minimamente desenvolvido tenha uma produção local de tintas. “O lado ruim disso é que as exportações também são pequenas, restritas a produtos especiais”, explicou.

Dessa forma, o setor precisa direcionar todos os seus esforços para o bom desenvolvimento do mercado interno, buscado, ao menos, um ambiente de competição saudável. É o caso da exigência de um nível mínimo de qualidade dos produtos vendidos no país, determinado por norma oficial da ABNT, fruto de longos esforços da Abrafati. “O Programa Setorial da Qualidade está consolidado em todo o Brasil, tem 29 fabricantes credenciados e outros dez em fase de aprovação, e verificamos recentemente o aumento no número de fábricas nas regiões Nordeste e Centro-Oeste que já nasceram com a qualidade necessária”, comentou.

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Agenda setorial – A Abrafati desenvolve sua agenda institucional de apoio ao desenvolvimento setorial com metas de curto e longo prazo. Ao verificar a mudança nos ventos da gestão da economia nacional, a entidade recomenda aos seus associados entender as novas orientações e buscar um alinhamento no diálogo com o governo federal. “A administração federal reduziu o foco na macroeconomia e se aprofundou na micro, isso afetou inicialmente os incentivos à produção e os impostos, mas agora precisa olhar novamente a economia como um todo, corrigindo os excessos cometidos para vencer as últimas eleições”, criticou.

A melhor forma de compreender o posicionamento do setor reside em enxergar o comportamento dos seus consumidores: habitação, infraestrutura, automóveis e indústrias. “Para nós, é importante que toda a atividade econômica nacional se fortaleça”, afirmou.

Olhando para o futuro, a Abrafati dará continuidade aos seus programas habituais, incluindo cursos e seminários, Pintor Profissional, Programa Setorial da Qualidade, e Congresso e Exposição de Tintas (que terá nova edição em 2015, de 13 a 15 de outubro, no Transamérica Expo Center, em São Paulo). A entidade está concluindo com suas parceiras (Prolata e Cempre) um plano de atuação compatível com as normas do Programa Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS).

Além disso, o setor deve olhar com mais cuidado as áreas de sustentabilidade e da ética para acompanhar as perspectivas e oportunidades de desenvolvimento nacionais. No campo da sustentabilidade, a Abrafati atuou com as Federações de Tintas de todo o mundo para definir um posicionamento global do setor. “Trouxemos esse programa para o Brasil em 2014 e foi criada uma comissão especial do Conselho Diretor da entidade com a presença de especialistas para implementá-lo”, informou.

A ideia é gerar programas uniformes, com aspectos mensuráveis e que sejam efetivamente reportados, atestando a contribuição setorial ao meio ambiente e ao desenvolvimento econômico. “Não é só um conjunto de procedimentos, mas uma atuação direta com as fábricas do setor”, salientou. Ele observa que as companhias multinacionais já contam com programas similares em suas matrizes e podem contribuir com suas experiências para a formatação do programa local. A Abrafati criou uma gerência de sustentabilidade para lidar exclusivamente nesse programa, contando com a contratação de uma especialista no tema para comandá-la.

“Essa é uma prioridade, tanto assim que o tema central de todos os trabalhos que serão apresentados durante a Abrafati 2015 será exatamente a sustentabilidade, em seus pilares ambiental, social e econômico”, salientou.

Em tempos de “Petrolão”, a ética empresarial tornou-se prioridade para todos os ramos de atividade, incluindo o setor de tintas e vernizes. “Esse escândalo abalou a imagem o país lá fora, que é de onde vêm os investimentos”, lamentou Ferreira. A Abrafati pretende atualizar e reescrever seu código de ética, pois o atual já tem dez anos e não abrange situações que surgiram nesse intervalo de tempo. “A sustentabilidade, por exemplo, também é um imperativo ético”, comentou. “Nesse campo os avanços são sempre graduais, mas precisamos começar o processo.”

Nos dois casos, da ética e da sustentabilidade, os programas serão mandatórios para as empresas associadas. Caso alguma delas não os observe, só são cabíveis as punições no âmbito da entidade, como advertência, suspensão ou expulsão. Sem contar o dano à imagem dessa empresa perante o mercado.

Ferreira acredita que o benefício será mais amplo. “Já tivemos uma experiência parecida no campo tributário, quando conseguimos reduzir a sonegação mediante a redução dos impostos e da implantação da nota fiscal eletrônica”, afirmou

Fonte: http://www.plastico.com.br/

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